O interesse por peptídeos como MOTS-C, BPC-157, CJC-1295, AOD-9604 e Epitalon cresceu de forma exponencial. O tema ganhou espaço nas redes sociais, em clínicas e em promessas de melhora metabólica, regeneração, performance e longevidade.
Mas visibilidade não é sinônimo de comprovação científica.
Este texto tem como objetivo esclarecer o que são peptídeos, quais têm evidência robusta e por que a maioria ainda não pode ser considerada uma conduta segura, especialmente no contexto brasileiro.
O que são peptídeos?
Peptídeos são pequenos fragmentos de proteínas que atuam como sinais biológicos no organismo. Eles participam de processos fisiológicos importantes, como metabolismo, inflamação, comunicação celular, cicatrização e função mitocondrial.
Alguns peptídeos são medicamentos aprovados e amplamente estudados, como os análogos de GLP-1, utilizados no tratamento da obesidade e do diabetes. Esses passaram por estudos clínicos robustos, com avaliação de eficácia, segurança e efeitos a longo prazo.
O problema surge quando peptídeos em fase experimental são divulgados como se tivessem o mesmo nível de evidência.
Peptídeos em estudo não são conduta clínica consolidada
Peptídeos como MOTS-C, BPC-157, CJC-1295, AOD-9604 e Epitalon ainda estão em fases iniciais de pesquisa científica. Muitos já vêm sendo utilizados em clínicas ou comercializados pela internet antes de existirem dados suficientes em humanos, inclusive sobre riscos de longo prazo.
É essencial entender que:
ter estudo não é o mesmo que ter resultado.
Pesquisar é diferente de comprovar.
Grande parte das evidências disponíveis envolve estudos in vitro ou modelos animais, o que não permite extrapolação direta para uso humano seguro.
Plausibilidade biológica não é eficácia clínica
Alguns desses peptídeos apresentam mecanismos que fazem sentido biologicamente, atuando em vias metabólicas relacionadas à inflamação, sensibilidade à insulina, cicatrização ou mitocôndrias.
No entanto, um ativo atuar em uma via metabólica em laboratório não garante que ele funcione da mesma forma no corpo humano. Para isso, é necessário que ele seja absorvido, distribuído corretamente, chegue ao tecido-alvo e produza efeito sem gerar riscos.
Um exemplo didático ajuda a ilustrar:
O hipoclorito de sódio (água sanitária) é capaz de matar vírus in vitro e em superfícies. Isso não significa que ingerir essa substância teria qualquer efeito antiviral no organismo, pelo contrário, seria extremamente tóxico.
Contexto biológico importa.
O que diz a regulamentação no Brasil?
No Brasil, nenenhum desses peptídeos experimentais é aprovado pela ANVISA para os usos que vêm sendo divulgados. Isso significa que não são reconhecidos como medicamentos ou suplementos de uso terapêutico seguro.
Portanto, seu uso não faz parte de protocolos clínicos consolidados e deve ser encarado como experimental.
O que realmente ativa essas vias metabólicas com segurança?
Antes de apostar em substâncias ainda em avaliação, é importante lembrar que as mesmas vias biológicas que esses peptídeos prometem ativar já podem ser moduladas de forma comprovada por meio de:
alimentação adequada
treino de força e atividade física
sono de qualidade
regulação do ritmo circadiano
exposição correta à luz
manejo do estresse
composição corporal saudável
Essas estratégias têm evidência consistente, impacto sistêmico e segurança a longo prazo.
Conclusão: cautela é ciência, não atraso
Peptídeos são, sim, um campo promissor da ciência. Se no futuro surgirem moléculas com eficácia e segurança comprovadas em humanos, elas poderão ser incorporadas à prática clínica.
No momento, porém, não é prudente tratar substâncias experimentais como solução pronta. Informação baseada em evidência não combate inovação, apenas respeita o tempo da ciência.
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Nutricionista Vanessa Lobato
Nutricionista Especializada em Fisiologia do Exercício pela UNIFESP
Nutricionista Especialista em Fitoterapia pela Santa Casa
Especializada em Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP
Pós-graduada em Neurociências pela UNIFESP



