Dieta do Haaland: mito ou ciência da nutrição esportiva?

Dieta do Haaland: o que é real, o que é mito e o que a ciência diz

Fígado cru. Leite não pasteurizado. Seis mil quilocalorias por dia. Nas últimas semanas, a dieta do Haaland virou um dos assuntos mais comentados da Copa do Mundo de 2026, quase na mesma proporção dos gols que ele vem fazendo em campo. Reportagens internacionais descrevem o cardápio do atacante norueguês como “ancestral”, “viking”, “radical”. E, como qualquer coisa que viraliza, ganhou uma vida própria, cada vez mais distante do que realmente sustenta o desempenho de um atleta desse nível.

O problema não é o Haaland comer fígado. É a ideia, implícita em quase toda cobertura, de que existe um alimento ou um número mágico por trás de uma performance de elite. Não existe. E entender por que não existe é mais útil pra quem treina, compete ou só quer comer melhor do que tentar reproduzir o prato de um jogador de 1,94m que treina 6h/dia.

O que sabemos de fato sobre a alimentação do Haaland

Antes de discutir o que importa, vale separar o que é informação confirmada do que é especulação. Segundo reportagens que acompanharam a Copa do Mundo de 2026, Haaland relata consumir cerca de 6.000 kcal/dia, com uma base de carne vermelha, ovos, peixe, mel e leite não pasteurizado, além de vísceras (especificamente coração e fígado) como parte central do que ele descreve como uma dieta “ancestral”. Ele também menciona um “potion” — leite batido com folhosos — como parte da rotina.

Isso é o que existe de relato direto, vindo do próprio atleta e de seu documentário. O que não existe, em nenhuma fonte séria, é uma prescrição nutricional formal por trás desse discurso — o que ele descreve é preferência pessoal e cultural, não um protocolo clínico validado. Essa distinção importa, porque a cobertura da mídia frequentemente embaralha as duas coisas.

Fígado cru faz mal? Não necessariamente! Vísceras são densas em ferro, vitamina A e B12, mas o consumo cru aumenta o risco de contaminação por patógenos como *Salmonella* e *Campylobacter*, um risco que o cozimento reduz sem eliminar o valor nutricional do alimento.

O erro de sempre: o caso Michael Phelps se repete

Esse padrão de cobertura não é novo. Em 2008, durante os Jogos Olímpicos de Pequim, se popularizou a ideia de que Michael Phelps comia 12 mil quilocalorias por dia. O próprio Phelps desmentiu a história anos depois, em sua autobiografia *No Limits*: “Não é verdade. Talvez oito a dez mil calorias por dia.” A origem do número foi um cálculo impreciso feito por um repórter em cima de uma resposta vaga do nadador sobre o que costumava comer, e a partir daí, a cifra virou fato repetido por anos.

O padrão se repete agora com o Haaland: uma declaração solta em entrevista ou documentário vira manchete, a manchete vira meme, e o meme vira “verdade” sobre nutrição esportiva, sem que ninguém pare pra perguntar qual mecanismo fisiológico estaria por trás daquele número ou alimento específico.

O que realmente sustenta a performance de um atleta de elite

A ciência da nutrição esportiva de elite não trabalha com a lógica de “alimento específico = resultado”. Trabalha com disponibilidade energética o equilíbrio entre a energia consumida e a energia gasta em treino, ajustado ao contexto de cada fase da temporada. O consenso de 2023 do Comitê Olímpico Internacional (COI) sobre Deficiência Energética Relativa no Esporte (REDs) deixa claro que tanto a deficiência quanto o excesso mal ajustado de energia têm custos reais de saúde e performance, já o número de calorias isolado não diz quase nada sem esse contexto.

Segundo o COI, o problema não é comer “muito” ou “pouco” em termos absolutos, mas desalinhar a ingestão calórica com a demanda real de treino e competição, algo que varia por atleta, fase de temporada e objetivo, muito diferente de perseguir uma cifra viral copiada de outra pessoa.

Uma revisão publicada na Nutrients em 2024 reforça esse ponto ao descrever a periodização nutricional no futebol: a estratégia alimentar muda conforme a fase do macrociclo de treinamento: mais proteína e energia na fase preparatória para sustentar ganho de massa magra, mais carboidrato na fase competitiva para repor glicogênio e sustentar a recuperação entre jogos. Não é um número fixo. É uma estratégia que se adapta ao calendário.

O carboidrato que a manchete esquece

Se há um nutriente sistematicamente ausente da cobertura sobre a “dieta viking“, é o carboidrato, justamente o que a ciência do futebol de elite mais discute. Uma revisão de escopo publicada em 2025 na Sports Medicine mapeou a literatura sobre recomendações de carboidrato para jogadores de futebol profissional e apontou a faixa de referência usada pelos clubes: 3 a 8 g de carboidrato /kg/peso corporal/dia, ajustada à carga de treino e ao calendário de jogos.

Durante a própria partida, o consenso da UEFA recomenda 30 a 60 g de carboidrato por hora. Um estudo de 2024 publicado no Journal of Sports Sciences, que mediu o consumo real de 22 jogadores de um clube da Premier League durante 90 minutos de jogo, encontrou uma média de apenas 17 g/h — bem abaixo da recomendação, com 81% do elenco não atingindo a meta. Ou seja: mesmo em clubes de elite, com estrutura de nutrição esportiva profissional, a execução prática do carboidrato durante o jogo é um desafio maior do que qualquer discussão sobre fígado cru ou leite não pasteurizado.

Quantas calorias o Haaland come por dia? Ele relata cerca de 6.000 kcal/dia, mas esse número isolado não explica o desempenho — o que a ciência do esporte associa a performance é o ajuste entre ingestão, gasto energético e a fase de treino, não uma cifra fixa copiável por qualquer pessoa.

Comida tradicional norueguesa: o que é evidência e o que é curiosidade

A base do prato “ancestral” do Haaland: peixe, laticínios, carne vermelha, ovos, não é uma invenção pessoal dele. Reflete um padrão alimentar histórico da Noruega: o país tem consumo historicamente alto de alimentos de origem animal (laticínios, carne, ovo e peixe) em comparação a outros países, embora esse consumo tenha mudado de forma significativa nas últimas nove décadas, com queda de cerca de 43% no consumo de leite per capita desde os anos 1970, segundo levantamento publicado no periódico norueguês Norsk tidsskrift for ernæring.

A cultura alimentar costeira norueguesa também tem uma relação histórica forte com peixes gordurosos (salmão, cavala, arenque) e laticínios como o *brunost* (queijo marrom norueguês) — produtos de alta densidade nutricional que fazem sentido num contexto de invernos longos e tradição pesqueira, não porque sejam “superalimentos” com propriedade mágica.

É aqui que vale separar evidência de curiosidade. Peixe gorduroso e laticínios têm respaldo nutricional real (ômega-3, proteína completa, cálcio, vitamina D). Já a narrativa de que leite cru ou vísceras cruas são superiores à versão pasteurizada/cozida por algum mecanismo especial não tem o mesmo respaldo: o ganho nutricional teórico é pequeno perto do risco de contaminação que o processamento térmico existe justamente para reduzir.

Por que a Noruega levou a própria comida pra Copa — e por que isso importa mais do que parece

Enquanto a atenção da mídia foi pro prato individual do Haaland, a decisão mais estrategicamente relevante da delegação norueguesa passou quase despercebida: a seleção embarcou para a Copa do Mundo de 2026 com uma equipe de três cozinheiros e centenas de quilos de alimento típico do país — por volta de 300 kg de peixe, mais de 100 kg de queijo e milhares de laranjas, segundo o jornal norueguês VG.

A razão por trás disso é bem documentada na literatura de nutrição esportiva de viagem. Trocar completamente a alimentação durante uma competição internacional significa mudar ingredientes, água, temperos e a composição microbiana dos alimentos, fatores que podem afetar a aceitação da dieta e aumentar o risco de desconforto gastrointestinal justamente na janela em que o atleta mais precisa estar em condição plena.

O *Position Stand* de 2019 da Sociedade Internacional de Nutrição Esportiva (ISSN) sobre probióticos aponta que viagens internacionais, exposição a multidões e mudança de ambiente de treino elevam o risco de infecção respiratória e gastrointestinal em atletas, justamente porque cerca de 70% do sistema imunológico está localizado no intestino, e alterações na composição da microbiota intestinal podem comprometer essa resposta imune num momento de alta demanda física.

Manter alimentos familiares durante a competição, então, não é excentricidade nem superstição. É uma forma de reduzir variável: menos chance de intolerância alimentar inesperada, menor exposição a patógenos não habituais, mais previsibilidade na ingestão energética planejada, e rotina de recuperação preservada. O diferencial não é o alimento em si é a decisão de eliminar uma fonte de imprevisibilidade justamente no momento em que o atleta não pode se dar ao luxo de imprevistos.


Entender esses princípios — e não só copiar cardápios de atletas — é o que faz diferença real na prática clínica. Se você quer ajustar sua própria estratégia nutricional com base no que a ciência realmente sustenta (e não no que viraliza), [fale comigo pelo WhatsApp] e vamos construir isso junto.

O que qualquer praticante de atividade física pode aprender (sem tentar copiar um atleta de elite)

Nenhum dos princípios acima depende de ser um atleta olímpico ou de nível mundial pra fazer sentido na rotina de quem treina de forma recreativa ou competitiva amadora:

Priorize densidade nutricional em vez de alimentos “mágicos”. Peixe, laticínios, ovos e vegetais cobrem a maior parte das necessidades de micronutrientes sem depender de víscera crua ou leite não pasteurizado.
Ajuste o carboidrato à demanda real do seu treino, não a uma meta genérica — quem treina 3x por semana tem uma necessidade completamente diferente de quem treina 2x por dia.
Trate viagem e mudança de rotina como uma variável de risco, não um detalhe — se você compete fora de casa, testar sua alimentação com antecedência reduz a chance de imprevisto gastrointestinal.
Desconfie de qualquer conselho nutricional baseado em um único alimento ou uma cifra viral. Se a explicação por trás de uma recomendação for “porque um atleta famoso faz assim”, falta o mecanismo — e o mecanismo é o que de fato se aplica ao seu contexto.

Conclusão

A “dieta do Haaland” é um ótimo estudo de caso sobre como a mídia esportiva transforma hábito pessoal em prescrição universal. O fígado cru e o leite não pasteurizado geram manchete; o ajuste real entre disponibilidade energética, periodização de carboidrato e controle de variáveis de viagem — que é o que a ciência de fato associa a desempenho — não gera. Vale lembrar: o que funciona para um atleta de 1,94m, com suporte médico e nutricional dedicado, não é automaticamente transferível pra rotina de quem treina fora desse contexto. Depende de objetivo, histórico de saúde e nível de treino — não existe protocolo universal.

Perguntas frequentes

A dieta do Haaland realmente existe como um protocolo formal?

Não como prescrição clínica publicada — o que existe são relatos do próprio atleta sobre preferências pessoais e culturais, sem validação científica de que esse padrão específico seja responsável pelo desempenho dele.

É verdade que o Haaland bebe leite não pasteurizado?

Segundo reportagens que acompanham a rotina dele, sim. Mas leite não pasteurizado carrega risco real de contaminação bacteriana, e esse risco não é compensado por um ganho nutricional exclusivo da versão crua.

Preciso comer 6.000 kcal por dia para ter resultado parecido?

Não. Esse valor reflete o gasto energético de um atleta de elite com volume de treino muito acima da média — replicar o número sem o mesmo gasto energético tende a gerar ganho de peso, não performance.

Por que a seleção da Noruega levou comida própria para a Copa?

Para reduzir variáveis durante a competição: controle de ingredientes, previsibilidade da ingestão energética, e menor exposição a mudanças na água e na composição microbiana dos alimentos, fatores associados a maior risco de desconforto gastrointestinal em viagem.

Dá para copiar a dieta de um atleta de elite?

Copiar o cardápio específico raramente faz sentido — o contexto de treino, histórico de saúde e objetivo são diferentes. O que é transferível são os princípios: densidade nutricional, ajuste de carboidrato à demanda real e redução de variáveis em momentos críticos.

 

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Referências

Mountjoy M, et al. 2023 International Olympic Committee’s (IOC) consensus statement on Relative Energy Deficiency in Sport (REDs). *Br J Sports Med*. 2023. [DOI](https://doi.org/10.1136/bjsports-2023-106994)
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– Kasper AM, et al. Nutritional habits of professional team sport athletes: carbohydrate, fluid and caffeine habits of English Premier League players during match play. *J Sports Sci*. 2024. [DOI](https://doi.org/10.1080/02640414.2024.2402137)
– Staśkiewicz-Bartecka W, et al. Changes in Body Composition and Nutritional Periodization during the Training Macrocycle in Football. *Nutrients*. 2024 (https://doi.org/10.3390/nu16091332)
– Jäger R, et al. International Society of Sports Nutrition Position Stand: Probiotics. *J Int Soc Sports Nutr*. 2019. [DOI](https://doi.org/10.1186/s12970-019-0329-0)

 

Sobre a autora

Vanessa Lobato é nutricionista (CRN 19988), especializada em Fisiologia do Exercício pela UNIFESP, com formação em Fitoterapia pela Santa Casa, Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP e pós-graduação em Neurociências pela UNIFESP. Atua há 20 anos traduzindo ciência para a rotina de pacientes e atletas, com o compromisso de “traduzir ciência pra sua rotina com leveza e verdade”.

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