Introdução
Perimenopausa e metabolismo é o tema de uma revisão científica que publiquei recentemente na Climacteric, a revista oficial da International Menopause Society, ao lado das pesquisadoras Tatiana Palotta Minari e Luciana Pellegrini Pisani, pelo Departamento de Biociências da UNIFESP. Já falei antes, aqui no blog e na newsletter, sobre a perimenopausa ser uma fase de atenção, não de tensão. Este texto é o aprofundamento científico por trás dessa frase.
Analisamos 56 estudos publicados entre 2000 e 2026, envolvendo humanos e modelos animais, para responder uma pergunta que aparece toda semana no consultório: por que o corpo muda tanto nessa fase, às vezes antes mesmo da menstruação parar, e às vezes sem o ponteiro da balança se mexer um grama?
A ideia central
A perimenopausa não é só “hormônios caindo”. É uma reprogramação metabólica.
Esse é, literalmente, o termo que usamos na discussão do artigo: a queda do estradiol interage com processos do próprio envelhecimento, alterando a flexibilidade metabólica, a função mitocondrial do músculo, a sinalização de insulina no fígado e a distribuição da gordura corporal. O resultado é um padrão bem característico: mais gordura visceral, tendência à perda de massa muscular, pior capacidade de queimar gordura como combustível e inflamação de baixo grau, mesmo quando o peso na balança continua igual.
Isso é o achado mais importante para levar deste texto: o IMC e o peso corporal, sozinhos, não captam essas mudanças. É por isso que tantas mulheres relatam “os exames estão normais, mas meu corpo claramente não é o mesmo”.
O que muda na composição corporal
O peso corporal não necessariamente muda de forma abrupta na transição menopausal, mas a composição do corpo muda, e de forma consistente: mais gordura, menos massa magra.
Um estudo longitudinal de 5 anos, conduzido por Wong e colaboradores, mostrou algo interessante: peso total, massa gorda e massa magra podem até aumentar um pouco durante a quarta e a quinta década de vida, mas a massa magra apendicular, principalmente nos braços, começa a declinar de forma significativa a partir da sexta década (DOI).
E existe um mecanismo por trás dessa perda de músculo, não é só “idade”. Um estudo de Willoughby e colaboradores encontrou que a queda do estradiol, combinada com ingestão proteica inadequada em mulheres na pós-menopausa inicial, se associou a mais marcadores de degradação da junção neuromuscular, mais inflamação sistêmica e mais proteólise muscular, comprometendo a ativação da unidade motora e a qualidade do músculo (DOI).
Para onde vai a gordura
Um dos achados mais marcantes da nossa revisão é sobre a redistribuição da gordura corporal.
Segundo os estudos analisados, a gordura subcutânea abdominal aumenta em praticamente todas as mulheres ao longo da vida adulta. Mas o acúmulo de gordura visceral, aquela ao redor dos órgãos, se torna muito mais pronunciado especificamente na perimenopausa tardia e na pós-menopausa, começando até dois anos antes da última menstruação, coincidindo com a queda do estradiol e a redução do gasto energético.
Isso não é só uma questão estética. O acúmulo acelerado de gordura visceral foi associado, nos estudos que revisamos, a maior espessura da íntima-média da carótida (um marcador precoce de aterosclerose), mais liberação de ácidos graxos livres, mais secreção de adipocinas pró-inflamatórias e resistência à insulina. Essa redistribuição de gordura também está fortemente ligada à esteatose hepática (gordura no fígado): mulheres na perimenopausa têm cerca de 2,4 vezes mais risco de desenvolver a condição, independente da idade e de outros fatores de risco metabólico tradicionais.
E o gasto energético? Aqui a ciência pede cautela
Esse é um ponto em que prefiro ser honesta com a complexidade, em vez de simplificar.
Estudos longitudinais mostram que a perimenopausa está associada a um aumento de gordura visceral e a uma redução do gasto energético de repouso, favorecendo balanço energético positivo. Só que quando isolamos o efeito específico da menopausa do efeito do próprio envelhecimento, a resposta fica mais nuançada. Um estudo de Karppinen e colaboradores, com mulheres adultas, encontrou que a idade, e não o status menopausal em si, foi o que se associou de forma independente a um menor gasto energético de repouso (DOI).
Isso depende do contexto. Isso não invalida o papel dos hormônios (outros mecanismos, como a redução da oxidação de gordura durante o exercício, seguem associados especificamente à transição menopausal), mas reforça que envelhecimento e queda hormonal agem de forma sinérgica, não isolada. Um estudo do grupo MONET, conduzido por Duval e colaboradores, reforça essa mesma conclusão: mudanças na composição corporal e na taxa metabólica durante a transição menopausal contribuem para alterações desfavoráveis no balanço energético (DOI).
Resistência à insulina e inflamação: o pano de fundo silencioso
A gordura visceral aumentada parece mediar boa parte da associação entre a queda do estradiol e a resistência à insulina em mulheres na pós-menopausa. Mecanicamente, o estrogênio suprime a gliconeogênese hepática (a produção de glicose pelo fígado) e melhora a sensibilidade à insulina; quando esse sinal hormonal cai, esse freio natural enfraquece.
Ao mesmo tempo, a perimenopausa vem acompanhada de mais citocinas pró-inflamatórias circulantes, como leptina, IL-1beta, IL-8 e TNF-alfa, e menos mediadores anti-inflamatórios. Em alguns estudos que revisamos, os níveis de IL-8 em mulheres na pós-menopausa foram comparáveis aos observados em condições inflamatórias crônicas.
O ponto prático disso tudo: o conjunto de obesidade central, triglicerídeos elevados, resistência à insulina e pressão alta, a chamada síndrome metabólica, começa a se formar durante a própria transição perimenopausal, muitas vezes antes da menopausa estar clinicamente estabelecida, e frequentemente sem ganho substancial de peso.
O que a ciência mostra que ajuda de verdade
Esta é a parte que mais me anima como nutricionista: existe intervenção real, com respaldo científico, para essa fase.
Treino de força. Não é só uma estratégia de controle de peso. Dado o papel do receptor de estrogênio alfa na função mitocondrial e na sensibilidade à insulina do músculo, o treino de força se torna uma intervenção fisiologicamente coerente, capaz de compensar parcialmente a queda hormonal. Recomendação prática que sustentamos na revisão: pelo menos duas a três vezes por semana, trabalhando os principais grupos musculares.
Dieta mediterrânea. A adesão a esse padrão alimentar, rico em gorduras insaturadas, fibras, antioxidantes e compostos bioativos, foi associada de forma consistente a melhora na composição corporal, no perfil lipídico e nos marcadores inflamatórios em mulheres no climatério, segundo uma revisão sistemática de Gonçalves e colaboradores (DOI).
Proteína e fibra. A ingestão proteica adequada entra na conversa não só pela preservação muscular, mas especificamente pela integridade da junção neuromuscular ligada ao estradiol. A fibra alimentar, por sua vez, interage com a microbiota intestinal e o metabolismo do estrogênio, com associação a melhor sensibilidade à insulina e menor prevalência de síndrome metabólica.
Se você sente que seu corpo mudou e os exames “não explicam nada”, vale um olhar que vá além do peso e do IMC. Fale comigo pelo WhatsApp e vamos avaliar sua composição corporal, não só a balança.
Por que isso importa clinicamente
Um dos pontos que defendemos com mais convicção na revisão é este: a perimenopausa deveria entrar nos algoritmos preventivos cardiometabólicos como uma condição que aumenta risco, no mesmo sentido em que o diabetes gestacional ou a síndrome dos ovários policísticos já são tratados em outras fases da vida reprodutiva.
Isso significa, na prática, ir além do peso e do IMC na avaliação: circunferência da cintura, composição corporal, força muscular e função física deveriam entrar na rotina de avaliação de mulheres na perimenopausa, porque essas medidas capturam o que a balança sozinha não capta.
Comparação clínica: o que muda, segundo a nossa revisão
| Mudança | O que a evidência mostra |
|---|---|
| Peso corporal | Pode não mudar de forma perceptível |
| Composição corporal | Mais gordura visceral, menos massa magra, mesmo sem mudança de peso |
| Gasto energético | Cai, mas o envelhecimento também tem papel independente da menopausa |
| Insulina | Tende a piorar, mediada em grande parte pela gordura visceral |
| Inflamação | Aumenta, com citocinas comparáveis a quadros inflamatórios crônicos |
| O que ajuda | Treino de força, dieta mediterrânea, proteína e fibra adequadas |
Conclusão
A perimenopausa não deveria ser vista apenas como uma transição reprodutiva sintomática, mas como um ponto de inflexão metabólica, biologicamente distinto e sensível ao tempo, que exige acompanhamento proativo e centrado em nutrição.
Isso depende do contexto de cada mulher: quem preserva massa muscular, mantém uma alimentação de padrão mediterrâneo e chega nessa fase com bons hábitos tende a atravessar essa janela de vulnerabilidade de forma bem diferente de quem chega sem esse preparo. Nem toda mudança metabólica no meio da vida é só perimenopausa, o envelhecimento em si também participa, e não funciona da mesma forma para todas as mulheres. Mas o recado central da nossa revisão é claro: dá para agir antes, não só depois que a menopausa já está clinicamente estabelecida.
Sobre a autora
Nutricionista Vanessa Lobato Nutricionista Especializada em Fisiologia do Exercício pela UNIFESP Nutricionista Especialista em Fitoterapia pela Santa Casa Especializada em Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP Pós-graduada em Neurociências pela UNIFESP. Coautora da revisão científica “Perimenopause and metabolic vulnerability: hormones, body composition and lifestyle changes”, publicada na Climacteric (2026), pelo Departamento de Biociências da UNIFESP.
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FAQ
A perimenopausa muda o metabolismo mesmo sem eu ganhar peso? Sim. Nossa revisão mostrou que o aumento de gordura visceral e a perda de massa magra podem ocorrer mesmo sem alterações significativas no peso corporal total, o que atrasa o reconhecimento clínico dessas mudanças.
Por que a gordura vai mais para a barriga na perimenopausa? A queda do estradiol altera a atividade de enzimas do tecido adiposo, reduzindo a lipólise abdominal e favorecendo o deslocamento da gordura da região glúteo-femoral para a região abdominal.
A perimenopausa aumenta o risco de gordura no fígado? Sim. Mulheres na perimenopausa apresentam cerca de 2,4 vezes mais risco de esteatose hepática (gordura no fígado), independentemente da idade e de outros fatores de risco metabólico.
O gasto energético cai por causa da menopausa ou por causa da idade? As duas coisas se somam. Um estudo que revisamos encontrou que a idade, isoladamente, foi o fator mais associado à queda do gasto energético de repouso, mas outros mecanismos ligados especificamente à transição menopausal também contribuem.
Treino de força realmente ajuda nessa fase? Sim, e não só para controle de peso. O treino de força atua diretamente em vias sensíveis ao estrogênio no músculo, ajudando a preservar massa magra e sensibilidade à insulina.
A dieta mediterrânea tem respaldo científico específico para a perimenopausa? Sim. Revisões sistemáticas associam a adesão à dieta mediterrânea a melhorias na composição corporal, no perfil lipídico e nos marcadores inflamatórios em mulheres nessa fase.



